Após 11 anos, Pernambuco retoma monitoramento de tubarões após ataques em Piedade e Boa Viagem.
Projeto da UFRPE receberá mais de R$ 1 milhão para rastrear tubarões na costa pernambucana e auxiliar na prevenção de novos incidentes
Após mais de uma década sem monitoramento contínuo dos tubarões que circulam pelo litoral pernambucano, Pernambuco voltará a rastrear os animais por meio de um novo programa científico que será iniciado até julho deste ano. A retomada ocorre em meio à preocupação gerada por dois incidentes envolvendo tubarões registrados em menos de 48 horas na Região Metropolitana do Recife.
No domingo (31), um menino de 11 anos foi atacado por um tubarão na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. A vítima sofreu ferimentos gravíssimos e precisou amputar a perna esquerda. Já na segunda-feira (1º), uma jovem de 19 anos foi mordida por um tubarão-tigre na Praia de Boa Viagem, no Recife, também sofrendo amputação traumática de um dos membros inferiores.
Diante do cenário, o Governo de Pernambuco anunciou a retomada do monitoramento científico dos tubarões por meio de um projeto coordenado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). A iniciativa foi contemplada na 19ª rodada do edital Ciência no Governo – Programa Cientista Arretado e contará com investimento superior a R$ 1 milhão ao longo dos próximos dois anos.
O objetivo é compreender melhor os padrões de deslocamento, comportamento e utilização das áreas costeiras pelas espécies que habitam o litoral pernambucano, produzindo dados capazes de orientar ações preventivas e fortalecer as políticas públicas de segurança nas praias.
Atualmente, segundo dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), Pernambuco já registrou 184 incidentes envolvendo tubarões desde o início da década de 1990, com 27 mortes contabilizadas no período. A maior parte dos casos ocorreu justamente no litoral da Região Metropolitana do Recife.
Monitoramento será ampliado para o litoral continental
Hoje, o acompanhamento permanente das espécies ocorre apenas no Arquipélago de Fernando de Noronha. Com o novo projeto, os estudos passarão a abranger o litoral continental, especialmente o trecho considerado mais crítico para ocorrência de incidentes, entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Olinda, em uma faixa de aproximadamente 33 quilômetros.
O trabalho será coordenado pelo engenheiro de pesca e doutor em Oceanografia Biológica Paulo Oliveira, professor da UFRPE. Segundo ele, o sistema utilizará tecnologia moderna de rastreamento por telemetria acústica.
“O projeto consiste na captura dos animais, implantação de transmissores e posterior devolução ao ambiente natural. Após isso, receptores instalados ao longo da costa captam os sinais emitidos pelos tubarões, permitindo acompanhar seus deslocamentos e entender como utilizam determinadas áreas do litoral”, explicou o pesquisador.
A tecnologia utiliza marcas ultrassônicas acopladas aos animais, enquanto equipamentos submersos registram automaticamente a passagem dos indivíduos monitorados.
Tubarão-cabeça-chata e tubarão-tigre serão foco do estudo
A pesquisa terá atenção especial para as duas espécies mais frequentemente associadas aos incidentes registrados no estado: o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre.
Além da marcação dos animais, os pesquisadores irão cruzar os dados de movimentação com informações ambientais, oceanográficas e de sensoriamento remoto para identificar padrões de comportamento e compreender por que determinadas áreas apresentam maior frequência de ocorrência em determinados períodos do ano.
O projeto também prevê a criação de uma plataforma digital para compartilhamento de informações científicas, o desenvolvimento de protocolos de alerta de risco, ações de educação ambiental e participação de pescadores e frequentadores das praias na coleta de informações.
Pesquisa busca reduzir riscos de novos ataques
Para a secretária-executiva do Cemit, Danise Alves, a retomada do monitoramento representa um passo importante para preencher lacunas científicas que existem há mais de 11 anos.
“Precisamos entender melhor como esses animais utilizam a costa pernambucana. Hoje sabemos onde alguns incidentes acontecem, mas ainda faltam informações detalhadas sobre os deslocamentos e o comportamento dessas espécies ao longo do litoral”, afirmou.
Segundo ela, a expectativa é que os dados permitam identificar áreas de maior e menor risco, fornecendo informações mais precisas para campanhas educativas, sinalização e estratégias de prevenção.
Com a retomada dos estudos, pesquisadores esperam ampliar o conhecimento científico sobre os tubarões que frequentam a costa pernambucana e contribuir para reduzir a ocorrência de novos incidentes envolvendo banhistas.



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