Governada pelos Calheiros há mais de 30 anos, Murici é alvo da segunda operação da PF em Alagoas em menos de um anos.
Operação Delivery investiga suspeitas de corrupção em contratos de obras públicas; investigação teve origem na prisão de empresário flagrado com R$ 270 mil em espécie
Governada pela família Calheiros há mais de três décadas, Murici voltou a ser alvo de uma operação da Polícia Federal (PF), tornando-se o foco da segunda grande ação da corporação na cidade alagoana em menos de um ano. A Operação Delivery, deflagrada nesta terça-feira (28), investiga um suposto esquema de corrupção, fraude em licitações e desvio de recursos públicos federais destinados à construção e reforma de escolas e quadras esportivas no município da Zona da Mata de Alagoas.
Embora registros históricos apontem que um Cônego Calheiros integrava a junta governativa de Murici antes mesmo de sua emancipação, em 1892, a ascensão política da família no município ganhou força a partir de 1992. Naquele ano, o então deputado Renan Calheiros (MDB) coordenou a campanha que levou seu pai, Olavo Calheiros Novais, à Prefeitura de Murici. Desde então, o município, localizado a cerca de 50 quilômetros de Maceió, passou a ser administrado por integrantes do mesmo grupo político em um revezamento familiar.
Ao longo desse período, Murici foi governada por Olavo Calheiros Novais, pelo deputado estadual Remi Calheiros (MDB), por Renan Filho (MDB) — prefeito entre 2005 e 2012, antes de ser eleito governador de Alagoas e, posteriormente, ministro dos Transportes —, por Olavo Neto, que administrou a cidade entre 2017 e 2024, e atualmente por Remi Filho (MDB), sobrinho do senador Renan Calheiros e primo de Renan Filho.
Segundo a Polícia Federal, as investigações começaram em novembro de 2025, após a prisão em flagrante do engenheiro civil, empresário e agropecuarista Diogo José Andrade Romão, suspeito de corrupção ativa. Ele foi abordado dentro da Secretaria Municipal de Finanças de Murici transportando R$ 270 mil em espécie e anotações manuscritas que, de acordo com a PF, indicariam possíveis pagamentos de vantagens indevidas relacionados a contratos de obras públicas.
Conforme o inquérito, no momento da abordagem o empresário informou que tinha reuniões marcadas com o secretário municipal de Finanças e com um fiscal de contratos. A Polícia Federal afirma que Diogo Andrade possuía mais de R$ 30 milhões em contratos com a Prefeitura de Murici, principalmente na área da educação, envolvendo obras de construção e reforma de escolas e quadras esportivas.
Meses antes da operação, Diogo José Andrade Romão também participou de uma reunião com o ministro dos Transportes, Renan Filho, em Brasília. O encontro foi divulgado pelo próprio empresário nas redes sociais, em publicação posteriormente apagada, na qual afirmou que discutiu “obras e desenvolvimento” para Alagoas. À época, reportagens apontaram que o compromisso não constava na agenda oficial do ministério. Até então, não havia manifestação pública da assessoria do ministro sobre o encontro.
Nesta nova fase da Operação Delivery, a Polícia Federal afirma ter reunido indícios de que servidores municipais solicitavam vantagens indevidas e recebiam percentuais sobre contratos públicos em troca de informações privilegiadas e favorecimento em licitações.
Por determinação da Justiça, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão em Murici e Maceió. Também foi determinado o sequestro de bens e valores de R$ 1.301.762,59, além do afastamento cautelar de servidores públicos investigados.
Durante as diligências, os policiais apreenderam R$ 123 mil em espécie, US$ 1.697, 7.345 euros e 550 libras esterlinas, montante equivalente a aproximadamente R$ 178.048,31.
A Polícia Federal informou que os investigados poderão responder pelos crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, peculato e associação criminosa. As investigações prosseguem para identificar outros envolvidos e mensurar o prejuízo causado aos cofres públicos.
Até o momento, a Polícia Federal não atribuiu responsabilidade criminal aos integrantes da família Calheiros no âmbito da Operação Delivery, e os nomes dos servidores afastados não foram divulgados.
Jornal de Penedo com Francesnews



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